quarta-feira, 25 de abril de 2007

Megumi

A primeira vez que a vi foi há muito tempo, num feriado do dia 15/11, na casa de um amigo de um primo meu. Ela tinha apenas 12 anos de idade, e, desde logo, encantei-me pela sua graça e pela vivacidade de espírito.

Como posso definir a beleza de uma pessoa? Com certeza, não pelos ridículos e estereotipados padrões atuais da "indústria" da moda. Não, certamente Megumi não se enquadraria no estereótipo da loira americana. A sua beleza era diferente.

Com o passar do tempo, fui frequentando a casa dela, e conhecendo um pouco de sua personalidade volátil, vivaz e algo elétrica. Afora os assuntos cotidianos e da escola, conversávamos muito sobre música e... piano (a gente estudava piano, ainda que em conservatórios diferentes).

Apesar de ser a irmã mais nova, nem por isto a sua vida era fácil. Lembro-me perfeitamente das homéricas brigas que ela tinha com os irmãos, especialmente com a irmã mais velha, Denise.

Não era a primeira vez que havia me apaixonado por alguém... Mas aos poucos passei a gostar dela. "Paixão" talvez não fosse o termo exato, mas sim, encantamento. Sim, de certa forma, ela era a irmãzinha que não pude ter.

O tempo foi passando e infelizmente fui perdendo contato, aos poucos. Os anos da faculdade vieram, e com eles, novas pessoas e novos desafios.
A última vez que vi Megumi foi na rodoviária, em alguma tarde de 1993-94. A gente conversou durante a viagem. Mas foi uma conversa morna, apenas para por os assuntos em dia. Logo depois saí de Assaí e fiquei quase 1 ano fora.
A última notícia que tive de Megumi foi quando voltei de Dourados, por intermédio de um amigo meu. Soube que ela tinha ido para o Japão, junto com a mãe. Seria uma notícia trivial se não fosse acompanhada de um comentário meio que maldoso - a de que se ele tivesse tido tempo, teria transado com ela. Não sei o que me faltou na hora para não dar um soco nele....

E não é que, quase vinte anos depois, reencontro Megumi de forma inesperada, na mesma rodoviária, nos mesmos bancos de ônibus? Mais do que um reencontro, houve um desabrochar de emoções há muito tempo esquecidas. Não me lembro quantos minutos nossos olhares se cruzaram - ao mesmo tempo sem dizer nada e dizendo tudo...
Ela continuava linda, com o mesmo olhar vivaz... Contudo os anos haviam imprimido um certo quê de maturidade em sua alma eternamente de criança.
E, mais uma vez, não tive a mesma iniciativa para dizer o que sentia. Creio que ela adivinhou tudo, já que se aproximou de mim para me beijar. Engraçado, nunca nos beijamos daquela forma quando estávamos perto... mas aquele instante pareceu-me uma eternidade...

Megumi, aonde estiver, seja sempre feliz!

domingo, 1 de abril de 2007

CÉSAR


RESENHA: CÉSAR, de Allan Massie.
Inaugurando a série de comentários e resenhas de nosso blog, apresentamos a nossa pequena análise sobre este livro, publicado pela Ediouro (www.ediouro.com.br) e que pode ser encontrado nas principais livrarias online.
Abrindo a coleção "Senhores de Roma", abarcando a vida - e morte - dos principais imperadores romanos, Alan Massie cria uma ficção envolvente e instigante a partir de personagens históricos reais, sobretudo pela figura impressionante de Júlio César (101-44 A.C.).
O principal diferencial deste livro, com as suas 242 páginas, é a de não pretender ser um romance histórico. Mas sim o de buscar apresentar as personalidades de Bruto, Marco Antônio, Casca, Cleópatra, Cícero e - sobretudo - o protagonista do romance, como figuras reais, tangíveis, numa roupagem contemporânea, cada qual, com a sua carga de qualidades e defeitos.
O próprio início do romance reflete esta tendência. A história toda é narrada pela ótica de Décimo Bruto - foragido e agora cativo - que rememora toda a sua trajetória a partir do momento em que conheceu Júlio César e de como a sua impressionante figura o dominou de tal maneira a ponto de se tornar o braço-direito do ditador.
Em traços vívidos, Bruto rememora o seu primeiro encontro com César (ironicamente, quando o mesmo veio seduzir a sua mãe), a sua rápida ascenção, suas principais campanhas militares, até o inevitável confronto com as decadentes instituições republicanas, culminando na Guerra Civil.
A figura do general e ditador romano é apresentada de forma ao mesmo tempo impressionante e prosaica: Estadista visão e almofadinha arrogante; chifrador de maridos e político sutil; gênio militar e dono de uma auto-confiança que beirava o descuido... Sob estes contrastes, Allan Massie tenta esculpir uma figura mais humanizada e nem por isto menos forte de um homem que chegou-se acreditar praticamente "divino".
A segunda parte do livro abre um parênteses, mostrando as circunstâncias do cativeiro de Bruto entre os gauleses e no seu relacionamento - nem um pouco dúbio - com Artixes, um príncipe daquele povo e que iria se tornar o depositário de suas memórias. A partir do diálogo nem sempre sutil entre Bruto e Artixes, o protagonista acaba por revelar as circunstâncias do gradual envolvimento de César com a princesa egípcia Cleópatra e na gradual mudança de pensamento do ditador romano rumo à uma mentalidade "imperial" absoluta, o que se revelaria fatal depois.
O clímax do romance ocorre quando Bruto descobre o conflito entre os seus ideais republicanos e o gradual despotismo de César - que não pretende mais renovar as instituições da República Romana, mas sim destrui-la - o que desencadeia o seu relutante, mas gradual envolvimento com as figuras que acabarão por ocasionar o complô resultando no assassinato de César e na posterior desintegração do frágil equilíbrio que mantinha a República.
Outras figuras são dignas de destaque na narrativa: O efeminado e intrigante Casca - general de César e futuramente um dos conspiradores - , a nada linear personalidade de Marco Antônio, o teorético orador Cícero, a nada recatada Cleópatra e o oportunismo pragmático do jovem Otávio Augusto. Quanto aos outros membros da conspiração - Cássio e Marco Bruto, primo de Décimo - são apresentados como figuras cinzentas e até medíocres, como em contraponto à onipresença de César.
Claro que devido às limitações de tamanho e do estilo empregado, alguns pontos acabam deixando a desejar: As campanhas da Gália e da própria Guerra Civil são tratadas de forma superficial, o Primeiro Triunvirato (a temporária aliança entre César, Pompeu e Crasso) é quase que ignorado e os acontecimentos que se sucederam à morte de César são narrados com uma rapidez atropelante.
Também o autor tomou várias liberdades com a certos pormenores históricos, como a captura de Décimo Bruto pelos gauleses, e de seus relacionamentos com a própria Cleópatra e com Otávio.
Contudo, pelo menos a maioria dos fatos que efetivamente ocorreram e que estão relatados no livro foram descritos de forma aceitável e mesmo a tentativa de usar um palavreado "moderno" ao modo de pensar dos romanos dá uma certa vivacidade à narrativa.
Resumindo, "César" é uma garantia de uma leitura envolvente por várias semanas. Mais do que uma biografia histórica, trata-se da ascenção, queda, morte e do nascimento do mito de um homem carismático, megalomaníaco, que vivia para o poder e pelo poder.
by Calerom, abril de 2007.