domingo, 1 de abril de 2007

CÉSAR


RESENHA: CÉSAR, de Allan Massie.
Inaugurando a série de comentários e resenhas de nosso blog, apresentamos a nossa pequena análise sobre este livro, publicado pela Ediouro (www.ediouro.com.br) e que pode ser encontrado nas principais livrarias online.
Abrindo a coleção "Senhores de Roma", abarcando a vida - e morte - dos principais imperadores romanos, Alan Massie cria uma ficção envolvente e instigante a partir de personagens históricos reais, sobretudo pela figura impressionante de Júlio César (101-44 A.C.).
O principal diferencial deste livro, com as suas 242 páginas, é a de não pretender ser um romance histórico. Mas sim o de buscar apresentar as personalidades de Bruto, Marco Antônio, Casca, Cleópatra, Cícero e - sobretudo - o protagonista do romance, como figuras reais, tangíveis, numa roupagem contemporânea, cada qual, com a sua carga de qualidades e defeitos.
O próprio início do romance reflete esta tendência. A história toda é narrada pela ótica de Décimo Bruto - foragido e agora cativo - que rememora toda a sua trajetória a partir do momento em que conheceu Júlio César e de como a sua impressionante figura o dominou de tal maneira a ponto de se tornar o braço-direito do ditador.
Em traços vívidos, Bruto rememora o seu primeiro encontro com César (ironicamente, quando o mesmo veio seduzir a sua mãe), a sua rápida ascenção, suas principais campanhas militares, até o inevitável confronto com as decadentes instituições republicanas, culminando na Guerra Civil.
A figura do general e ditador romano é apresentada de forma ao mesmo tempo impressionante e prosaica: Estadista visão e almofadinha arrogante; chifrador de maridos e político sutil; gênio militar e dono de uma auto-confiança que beirava o descuido... Sob estes contrastes, Allan Massie tenta esculpir uma figura mais humanizada e nem por isto menos forte de um homem que chegou-se acreditar praticamente "divino".
A segunda parte do livro abre um parênteses, mostrando as circunstâncias do cativeiro de Bruto entre os gauleses e no seu relacionamento - nem um pouco dúbio - com Artixes, um príncipe daquele povo e que iria se tornar o depositário de suas memórias. A partir do diálogo nem sempre sutil entre Bruto e Artixes, o protagonista acaba por revelar as circunstâncias do gradual envolvimento de César com a princesa egípcia Cleópatra e na gradual mudança de pensamento do ditador romano rumo à uma mentalidade "imperial" absoluta, o que se revelaria fatal depois.
O clímax do romance ocorre quando Bruto descobre o conflito entre os seus ideais republicanos e o gradual despotismo de César - que não pretende mais renovar as instituições da República Romana, mas sim destrui-la - o que desencadeia o seu relutante, mas gradual envolvimento com as figuras que acabarão por ocasionar o complô resultando no assassinato de César e na posterior desintegração do frágil equilíbrio que mantinha a República.
Outras figuras são dignas de destaque na narrativa: O efeminado e intrigante Casca - general de César e futuramente um dos conspiradores - , a nada linear personalidade de Marco Antônio, o teorético orador Cícero, a nada recatada Cleópatra e o oportunismo pragmático do jovem Otávio Augusto. Quanto aos outros membros da conspiração - Cássio e Marco Bruto, primo de Décimo - são apresentados como figuras cinzentas e até medíocres, como em contraponto à onipresença de César.
Claro que devido às limitações de tamanho e do estilo empregado, alguns pontos acabam deixando a desejar: As campanhas da Gália e da própria Guerra Civil são tratadas de forma superficial, o Primeiro Triunvirato (a temporária aliança entre César, Pompeu e Crasso) é quase que ignorado e os acontecimentos que se sucederam à morte de César são narrados com uma rapidez atropelante.
Também o autor tomou várias liberdades com a certos pormenores históricos, como a captura de Décimo Bruto pelos gauleses, e de seus relacionamentos com a própria Cleópatra e com Otávio.
Contudo, pelo menos a maioria dos fatos que efetivamente ocorreram e que estão relatados no livro foram descritos de forma aceitável e mesmo a tentativa de usar um palavreado "moderno" ao modo de pensar dos romanos dá uma certa vivacidade à narrativa.
Resumindo, "César" é uma garantia de uma leitura envolvente por várias semanas. Mais do que uma biografia histórica, trata-se da ascenção, queda, morte e do nascimento do mito de um homem carismático, megalomaníaco, que vivia para o poder e pelo poder.
by Calerom, abril de 2007.

Um comentário:

Bonjour Books disse...

Grande resenha! Não tive a oportunidade de ler este livro mas tenho verdadeiro fascínio pela história do grande Império Romano, sobretudo sobre os maiores imperadores, na minha opinião, Augusto, Adriano e Marco Aurélio. Além do grande Júlio César, claro.

Adorei a resenha, bacana que um livro trate um personagem tão importante da história buscando, também, o lado humano com qualidades e também defeitos.

Espero que você leia os outros livros da série para que possamos ler outras ótimas resenhas! :)